Cursos Online


Como a maioria de vocês deve saber, hoje em dia há várias opções de cursos online na internet. Mas como quase sempre, há um lado bom e um lado ruim nisto.

O lado bom é que você pode revisar/estudar diversos conteúdos a qualquer hora, em qualquer lugar e quantas vezes quiser e for necessário, bastando para isto ter por perto um computador ou tablet conectado à internet. Há também a possibilidade de se qualificar em uma determinada área.

Por outro lado, é bom ter em mente que existe muito material de qualidade duvidosa na internet e não seria diferente no caso das vídeo-aulas. Este é justamente o lado ruim.

Continuar lendo

Problema de cálculo


Na época em que fiz a gradução lembro que o professor de análise matemática propôs o probleminha abaixo. Agora estou cursando uma disciplina de topologia na pós-gradução e o tal o probleminha apareceu novamente. Então resolvi compartilhar com vocês esse problema tão comum em cursos que, de alguma forma, estudam continuidade de funções. Para abranger um público maior e deixar a solução com uma linguagem comum àquela encontrada em livros de cálculo, resolvi então não utilizar nomenclatura de topologia nos resultados usados para a resolução do problema. Vamos ao enunciado do problema:

Seja f\colon \mathbb{R} \to \mathbb{R} uma função contínua que preserva a soma, ou seja, f(x+y) = f(x) + f(y), quaisquer que sejam os valores reais de x, y. Então existe \lambda \in \mathbb{R} tal que f(x) = \lambda \cdot x, para todo x \in \mathbb{R}.

Vamos dividir a solução do problema em várias etapas. A ideia básica é mostrar que a funçã o f com a propriedade acima é uma função linear quando restrita ao conjunto \mathbb{Q} dos números racionais. Uma vez mostrado isso, usaremos o seguinte fato (trocando D por \mathbb{Q}):

Lema*: Sejam f, g \colon \mathbb{R} \to \mathbb{R} duas funções contínuas. Se existe um conjunto D denso em \mathbb{R} tal que f(x) = g(x), para todo x em D, então f = g em \mathbb{R}.

O resultado acima, no fundo, diz o seguinte: se duas funções (reais) contínuas coincidem num conjunto denso, então elas são iguais. Ou ainda, para que duas funções (reais) contínuas sejam iguais, basta que elas coincidam num conjunto denso em \mathbb{R}.

Solução:

Passo 1. f(0) = f(0+0) = f(0) + f(0) \Rightarrow f(0) = 0

Passo 2. f(2) = f(1+1) = f(1) + f(1) = 2\cdot f(1)

Por indução finita, segue que:

n \in \mathbb{N}: f(n) = f(1 + (n-1)) = f(1) + f(n-1) = f(1) + (n-1)f(1) = nf(1)

Passo 3. 0 = f(0) = f(x - x) = f(x) + f(-x) \Rightarrow f(-x) = - f(x), para todo x \in \mathbb{R}

Juntando os passos 2 e 3 podemos concluir que f(z) = z\cdot f(1), para todo z \in \mathbb{Z}.

Passo 4. n \in \mathbb{N}: f(1) = f(n \cdot \frac{1}{n}) = f(\frac{1}{n}) + \dots + f(\frac{1}{n}) = n \cdot f(\frac{1}{n}) \Rightarrow f(\frac{1}{n}) = \frac{1}{n} \cdot f(1)

Passo 5. m,n \in \mathbb{N}: f(m/n) = f(m\cdot \frac{1}{n}) = f(\frac{1}{n}) + \dots + f(\frac{1}{n}) = m \cdot f(\frac{1}{n}) = m \cdot \frac{1}{n} \cdot f(1). Logo, f(m/n) = \frac{m}{n} \cdot f(1).

Juntando os passos 3 e 5 podemos concluir que f(q) = q\cdot f(1), para todo q \in \mathbb{Q}.

Passo 6. Definindo a função g\colon \mathbb{R} \to \mathbb{R} por g(x) = \lambda x, para todo x \in \mathbb{R}, onde \lambda=f(1), tem-se que g é uma função contínua (por quê?). Além disso, g(q) = f(1) \cdot q = f(q), para todo q\in \mathbb{Q}, ou seja, f e g coincidem em \mathbb{Q}.

Usando o passo 6 e o Lema acima, podemos concluir que f(x) = \lambda \cdot x, para todo x \in \mathbb{R}, onde \lambda = f(1). \blacksquare

É isso…

(*) Para aqueles que já fizeram um curso de topologia, devem saber que o Lema acima poderia ter sido enunciado da seguinte forma:

Lema: Sejam (X, \sigma) e (Y,\sigma') dois espaços topológicos, onde o espaço (Y, \sigma') verifica o axioma T_2 (Hausdorff) e existe D \subset X denso em X. Se f,g \colon X \to Y são duas funções contínuas tais que f(t) = g(t), para todo t \in D, então f = g.

Qual o Teorema? – parte 2


Continuando nossa série de posts “Qual é o Teorema?” …

Dado que U \subseteq \mathbb{R}^2 é um aberto, existe \epsilon > 0 tal que o quadrado (a- \epsilon , a +\epsilon) \times (b - \epsilon , b +\epsilon ) está contido em U . Para todo t \in (-\epsilon , \epsilon) , ponhamos

\displaystyle \phi (t) = f(a+t, b + t) - f(a + t, b) - f(a, b+ t) + f(a,b) .

Então, escrevendo \xi(x) = f(x, b+t) - f(x,b) , vemos que \phi (t) = \xi(a+t) - \xi(a) . Pelo Teorema do Valor Médio para funções de uma variável, existe \theta \in (0,1) tal que

\displaystyle \phi (t) = \left[\frac{\partial f}{\partial x}(a+\theta t, b + t) - \frac{\partial f}{\partial x}(a+\theta t, b) \right] .

Como a função \frac{\partial f}{\partial x} : U \to \mathbb{R} é diferenciável no ponto c=(a,b) , temos as igualdades:

\displaystyle \frac{\partial f}{\partial x}(a+\theta t, b + t) = \frac{\partial f}{\partial x} + \frac{\partial ^2 f}{\partial x^2} \cdot \theta t + \frac{\partial^2 f}{\partial y \partial x} \cdot t+ \rho_1 \cdot t e

\displaystyle \frac{\partial f}{\partial x}(a+\theta t, b) = \frac{\partial f}{\partial x} + \frac{\partial ^2 f}{\partial x^2} \cdot \theta t + \rho_2 \cdot t , onde \displaystyle \lim_{t \rightarrow 0} \rho_i = 0

Daí, \phi (t) = \frac{\partial^2 f}{\partial y \partial x} \cdot t^2 + \rho \cdot t^2 onde \rho = \rho_1 - \rho_2 e portanto \lim_{t \rightarrow 0} \rho = 0 . Segue-se então que

\displaystyle \lim_{t \rightarrow 0} \frac{\phi (t)}{t^2} = \frac{\partial^2 f}{\partial y \partial x} .

H.A.S.

Comente com o enunciado do Teorema …

O Início


Inauguremos esta versão do “Morfismo ↔ Matemática Sem Dúvidas” com um problema de Cálculo Diferencial. Na medida do possível, publicaremos pelo menos um post por semana. O ideal seria um por dia!!! Mas escrever sobre matemáticas leva tempo e temos que ter paciência para selecionar conteúdos que sejam de interesse da maioria.

» Problema: Dada uma função F: \mathbb{R}^m \rightarrow \mathbb{R}^n contínua, suponha que existam n funções g_1 , . . . , g_n : \mathbb{R}^n \rightarrow \mathbb{R} de classe C^1 tais que g_1 \circ F , . . . , g_n \circ F sejam de classe C^1 . Mostre que se dg_1 (F(x)) , ... , dg_n (F(x)) são linearmente independentes para todo x \in \mathbb{R}^m , então a função F é de classe C^1 .

Este problema é uma aplicação do Teorema da Função Inversa (TFI)¹. Na solução, usamos a continuidade da função F para garantir que a imagem inversa, por F , de um aberto de \mathbb{R}^n é um aberto em \mathbb{R}^m . Além disso, usamos o fato de os vetores dg_1 (F(x)) , ... , dg_n (F(x)) formarem um conjunto L.I. para nos assegurar que o Jacobiano de uma função, a ser definida, é diferente de zero [onde o Jacobiano de uma função G em x é dado por JG(x) = det G'(x) ] Leia +